Será você meu Anjo?

By lamedusas

ok, lembrei de outro poema que está entre os meus prediletos: Um supermercado na Califórnia, Allen Ginsberg.o fodão dos anos sessenta, daquele período cósmico e sujo, aqui no poema encontra o “professor de coragem” (melhor definição não há) Walt Whitman, e seguem caminhando juntos pelas solitárias ruas da Califórnia.

será ele um Anjo, Ginsberg?

 

Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman,
enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de
cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
       No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das imagens, entrei no supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações !
       

Que pêssegos e que penumbras ! Famílias inteiras fazendo
suas compras a noite ! Corredores cheios de maridos !
Esposas entre os abacates, bebês nos tomates ! — e você,
Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias ? 

       Eu o vi Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
       Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as
costeletas de porco ? Qual o preço das bananas ? Será você meu
Anjo ?
       

Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o
e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso
passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos
petiscos gelados e nunca passando pelo caixa. 

       Aonde vamos, Walt Whitman ? As portas fecharão em uma
hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite ?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e sinto-me absurdo.)
       Caminharemos a noite toda por solitárias ruas ? As árvores
somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas,
ficaremos ambos sós.
       

Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor,
passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando
para nosso silencioso chalé ? 

       Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor
de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou
de impelir sua balsa e Você na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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