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Será você meu Anjo?

Julho 12, 2008

ok, lembrei de outro poema que está entre os meus prediletos: Um supermercado na Califórnia, Allen Ginsberg.o fodão dos anos sessenta, daquele período cósmico e sujo, aqui no poema encontra o “professor de coragem” (melhor definição não há) Walt Whitman, e seguem caminhando juntos pelas solitárias ruas da Califórnia.

será ele um Anjo, Ginsberg?

 

Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman,
enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de
cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
       No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das imagens, entrei no supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações !
       

Que pêssegos e que penumbras ! Famílias inteiras fazendo
suas compras a noite ! Corredores cheios de maridos !
Esposas entre os abacates, bebês nos tomates ! — e você,
Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias ? 

       Eu o vi Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
       Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as
costeletas de porco ? Qual o preço das bananas ? Será você meu
Anjo ?
       

Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o
e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso
passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos
petiscos gelados e nunca passando pelo caixa. 

       Aonde vamos, Walt Whitman ? As portas fecharão em uma
hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite ?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e sinto-me absurdo.)
       Caminharemos a noite toda por solitárias ruas ? As árvores
somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas,
ficaremos ambos sós.
       

Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor,
passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando
para nosso silencioso chalé ? 

       Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor
de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou
de impelir sua balsa e Você na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

pelas calçadas crescem longos delírios

Julho 12, 2008

aí vai uns fragmentos de poema do Roberto Bolaño, no seu poema “Un paseo por la literatura”, um pequeno trajeto por livros e delírios

aí eu digo como o outro lá: Bolaño FILHODAPUTA.

 

 

1. Sonhei que Georges Perec tinha três anos e visitava minha casa. O abraçava, o beijava, lhe dizia que era um menino precioso.

9. Sonhei que Macedonio Fernández aparecia no céu de Nova York em forma de nuvem: uma nuvem sem nariz nem orelhas, mas com olhos e boca.

11. Sonhei que em um cemitério esquecido da África encontrava a tumba de um amigo cujo rosto já não podia recordar.

13. Sonhei que lia Stendhal na Estação Nuclear de Civitavecchia: uma sombra deslizava pela cerâmica dos reatores. É o fantasma de Stendhal, dizia um jovem com botas e nu da cintura pra cima. E você, quem é?, perguntei. Sou o yonqui da cerâmica, o húsar da cerâmica e da merda, disse.

14. Sonhei que estava sonhando, tínhamos perdido a revolução antes de fazê-la e decidia voltar para casa. Ao tentar me enfiar na cama encontrei De Quincey dormindo. Acorda, dom Tomás, lhe dizia, já vai amanhecer, você tem que ir. (Como se De Quincey fosse um vampiro.) Mas ninguém me escutava e eu voltava a sair para as ruas escuras da Cidade do México.

15. Sonhei que via nascer e morrer Aloysius Bertrand no mesmo dia, quase sem intervalo de tempo, com se os dois vivêssemos dentro de um calendário de pedra perdido no espaço.

17. Sonhei que era um detetive velho e enfermo e que buscava gente perdida havia muito tempo. Às vezes me olhava por acaso num espelho e reconhecia Roberto Bolaño.

20. Sonhei que o cadáver voltava à Terra Prometida montado em uma Legião de Touros Mecânicos.

23. Sonhei que voltava da África em um ônibus cheio de animais mortos. Numa fronteira qualquer aparecia um veterinário sem rosto. Sua cara era como um gás, mas eu sabia quem era.

24. Sonhei que Philip K. Dick passeava pela Estação Nuclear de Civitavecchia.

29. Sonhei que traduzia Virgilio com uma pedra. Estava nu sobre uma grande pedra de basalto e o sol, como diziam os pilotos de caça, flutuava perigosamente às 5.

31. Sonhei que a Terra acabava. E que o único ser humano que contemplava o fim era Franz Kafka. No céu, os Titãs lutavam até a morte. De um banco de ferro forjado de um parque em Nova York, Kafka via arder o mundo.

32. Sonhei que estava sonhando e que voltava para casa muito tarde. Na minha cama encontrava Mario de Sá-Carneiro dormindo com meu primeiro amor. Ao descobri-los, percebia que estavam mortos e mordendo-me os lábios até sangrar eu voltava aos caminhos vicinais.

34. Sonhei que era um detetive latino-americano muito velho. Vivia em Nova York e Mark Twain me contratava para salvar a vida de alguém que não tinha rosto. Vai ser um caso condenadamente difícil, senhor Twain, dizia a ele.

36. Sonhei que fazia um 69 com Anaïs Nin em cima de uma enorme rocha de basalto.

37. Sonhei que fodia com Carson McCullers numa casa em penumbras na primavera de 1981. E nós dois nos sentíamos irracionalmente felizes.

40. Sonhei que uma tempestade de números fantasmais era a única coisa que restava dos seres humanos três bilhões de anos depois que a Terra havia deixado de existir.

42. Sonhei que tinha 18 anos e via meu melhor amigo de então, que também tinha 18 anos, fazendo amor com Walt Whitman. Faziam numa poltrona, contemplando o entardecer borrascoso de Civitavecchia.

45. Sonhei que Pascal falava do medo com palavras cristalinas em uma taberna de Civitavecchia: “Os milagres não servem para converter, senão para condenar”, dizia.

47. Sonhei que Baudelaire fazia amor com uma sombra numa casa onde haviam cometido um crime. Mas Baudelaire não estava nem aí. “É sempre a mesma coisa”, dizia.

50. Sonhei que depois da chuva um escritor russo e também seus amigos franceses optavam pela felicidade. Sem perguntar nem pedir nada. Como quem se derruba sem sentido sobre seu tapete favorito.

53. Sonhei que voltava às estradas, mas desta vez não tinha 15 anos e sim mais de 40. Só tinha um livro, que levava em minha pequena mochila. De repente, enquanto ia caminhando, o livro começa a arder. Amanhecia e quase não passavam carros. Enquanto jogava a mochila chamuscada em um canal, senti que minhas costas coçavam como se tivesse asas.

55. Sonhei que ninguém morre na véspera.

56. Sonhei que um homem voltava sua vista atrás, sobre a paisagem anamórfica dos sonhos, e que sua mirada era dura como aço mas também se fragmentava em múltiplas miradas cada vez mais inocentes, cada vez mais deslavidas.

57. Sonhei que Georges Perec tinha três anos e chorava desconsoladamente. Eu tentava acalmá-lo. O pegava os braços, lhe comprava guloseimas, livros para pintar. Logo íamos para o Passeio Marítimo de Nova York e enquanto ele descia pelo escorregador eu me dizia a mim mesmo: não sirvo para nada, mas servirei para cuidar de você, ninguém te fará mal, ninguém tentará te matar. Depois começava a chover e voltávamos tranqüilamente para casa. Mas onde estava nossa casa?

Uma Temporada no Inferno

Julho 9, 2008

bem, aqui vai um texto sobre o livro A Última Casa de Ópio, de Nick Tosches.o texto não é novo,na verdade foi pra uma nota, haha.mas como ainda não tenho nada, enfim…vai isso aí mexmo, miguxos. (tosquices MODE ON, como falaria meu miguxo fofuxo rodriguxo).agora chega..toma aí:

 

      Suba na garupa de um motoqueiro sob o domínio de um baseado eletrificado, siga atalho abaixo numa selva fechada e quebre em alta velocidade um cerco policial com metralhadoras a postos em pleno Camboja. Viva uma aventura real, esqueça o turismo insosso. Nick Tosches fez tudo isso e mais um pouco. Um dos maiores escritores norte-americanos ainda vivo, Nick Tosches enfrenta os sete mares em busca do paraíso perdido: a última casa de ópio.

      O que era para ser apenas um artigo virou um dos livros mais impossíveis e fascinantes. A Última Casa de Ópio é a entrada num mundo invisível e quase extinto; um passeio num inferno onde os transeuntes só possuem uma chance de redenção: o ópio. Por que ópio? “(…) ‘ o proibido e fabuloso ópio’ sempre foi o perigoso vislumbre do paraíso pelo qual nenhum iniciado passou são e salvo (…) O remédio de Deus (…).Lágrimas de Afrodite”. Não foi à toa que Afrodite chorou o paraíso.

      “Eu nasci para fumar ópio. Mais exatamente, nasci para fumar ópio numa casa de ópio.” A última gota foi uma cebola de 35 dólares num dos restaurantes mais sofisticados de Manhattam. Na verdade era meia cebola. Assim Nick Tosches começa sua jornada rumo ao inferno; ele precisava. Não há para onde correr: é a era do pseudoconhecimento. Bebericar o “suco de uva azedo” e discutir sobre o traço de pimentão escondido atrás do cassis não é mais nada do que uma tentativa frustrada de se diferenciar do todo medíocre. Veja bem: frustrada. Ele decide viver. “Fodam-se este mundo de cebolas de 35 dólares e aqueles que as comem”. Ele decide se ajoelhar aos pés de Afrodite e lamber suas lágrimas. Num mundo onde as melhores coisas da vida passam despercebidas porque não estão à venda é melhor fugir e correr como o motoqueiro chapado a toda velocidade. Vamos às casas de ópio.

      Hua-yan jian, assim eram chamadas as casas de ópio: sala de fumaça e flores. Fumaça o ópio, flores as cortesãs. “Visões de locais escuros, de decadência luxuosa, com cortinas de brocado e almofadas de veludo, recendendo a uma mistura de fumaça e aroma de incensos e da própria substância celestial, proibida, fabulosa (…). Atemporalidade. Santuário. Membros adoráveis despontando das vestes entreabertas de relaxadas e exóticas concubinas, docemente intoxicadas (…)”. Pelas veredas do Extremo Oriente Nick Tosches se desdobra por ruas e labirintos onde bexiga viva de cobra é engolida a sangue frio e ainda pulsante – um bom remédio para artrite – e bares declaram: 250 garotas no andar de cima. Mas nada de ópio. Há lugares onde seu tráfico é punido com pena de morte. Cada vez mais o prazer é adiado; em compensação, a cada beco o verdadeiro conhecimento salta aos olhos. Mercados noturnos onde o conhecimento milenar para preparação de sopa de cobra convive lado a lado (muitas vezes literalmente falando) com templos budistas e bares onde a sentinela empunha uma metralhadora enquanto o rock asiático explode lá dentro.

      Por toda Hong Kong, descendo pro Camboja e saltando para a Tailândia, visitando as províncias da China, deparar-se com quilos e mais quilos de heroína, maconha, anfetamina e até cédulas americanas com marca- d’água, fita de segurança você encontra; é só bater um papo com uma gangue de Sham Shui Po. Mas o ópio é uma tradição já quase extinta; o que resta são apenas seus remanescentes, velhos senhores guardiões do elo. Cada vez mais a “flor do prazer” foi sendo esmagada e transformada em seus derivados morfina e heroína (e a fila não pára de crescer); cada vez mais os mais jovens iam procurando “a disparada rumo ao vácuo”, deixando o ritual à lenta flutuação virar peça de museu.

       Quanto as casas de ópio, desista. Viraram memórias de Charles Baudelaire e Thomas de Quincey. As casas de ópio, igualmente como o próprio ópio, estão ultraproibidíssimas, de Manhattam até a China. Isso não impede de Tosches fazer um pequeno histórico pelas ruas dos Estados Unidos do século XIX, quando imigrantes chineses trabalhadores das minas e ferrovias espalhavam por todas as grandes cidades as famosas casas de ópio, que já nesse período eram demonizadas pela sociedade em geral, como qualquer trabalhador chinês. Já em 1930 as casas de ópio eram raras; com o tempo as plantações de ópio pelo mundo foram dedicadas para a transformação em morfina e heroína. O fim do ópio, enquanto fim último, foi um uróboro: quanto mais ópio nas plantações, menos ópio no cachimbo. E consequentemente seria o fim das casas de ópio. Com a demanda baixa de usuários, não tinha porque arriscar persistindo ficarem abertas, com a lei em cima.

      “Mas eu não podia acreditar nisso. E eu não iria acreditar”. Tosches, parente do jornalismo gonzo de Hunter Thompson, adentra num mundo digno de um País das Maravilhas até conseguir sua Grande Tragada. Entre bares sem teto e feiras com larvas como aperitivo, casas de chá onde o cliente tem a virilha massageada como cortesia da casa, um mundo belo, estranho e decadente se desenha aos olhos do leitor. Um mundo desconhecido dos panfletos de agências de turismo pelo mundo a fora. Então, finalmente, no meio do nada em pleno Camboja, dentro de uma cabana apoiada em palafitas, ele suga o Paraíso entre a ondulante fumaça de um Marlboro e versos de Shakespeare.